sábado, 22 de janeiro de 2011

Amor Instantâneo II

No outro dia acho que te amei?
Que absurdo desconfiar da certeza,
sendo toda ela vera e audível.

Esse dia parecia hoje e ontem e amanhã…
Surgia da chama e amava-te, pois nada sei
fazer melhor que amar-te.

E por isto,
auguro o cativeiro que me acossa
somente por amar o que amo.

Não pinto a menor tela,
de como rabiscar o que é o amor,
mas apercebo-me quando se encosta a mim,
sei que o sinto e sei como senti-lo.

António Seia
Maia, 17 de Julho de 2010

Amor Instantâneo I

Mas que raio de raiar é este tal
que o teu olhar pungente provoca,
que me faz mesmo arder os poros da pele,
iluminando até as fracções de trevas
mais assombradas que em mim existem.

No outro dia acho que te Amei, outra vez.
Não sei bem de que feitio ou por que móbil.
Mas amei-te, quase sem suspeitas o escrevo.

O que senti?
Foi como se os borrões da tela se abolissem no geral,
e o que vem de longe se entendesse de perto,
e a solidão em Liberdade, já por si infernal,
se incendiasse num ápice inconcebível,
e as ruas íngremes se assimilassem mais com Planícies.

Se não te amei, então o que me ocorreu?
Dobrada fria à Campos não me foi servida que eu sei.
Portanto, mendigo por perdão se te empreguei
como solitária da minha razão,
pois tal destino não te estava traçado
num mapa que nem tão-pouco esbocei.

Mas admira-me com um certo desconcerto,
esta necessidade vasta minha,
de te tocar as Cordas já enferrujadas,
não desafinando para que a mensagem
te chegue clara e sem interferências.

Se vi um brotar do Sol casual nesse dia enevoado?
Penso que não: vi-te a ti numa utopia de olhos abertos.

António Seia
Maia, 14 de Fevereiro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Utopia que dói..


"Segredo"

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ser auto-trófico

Afirmo-me um ser auto-trófico, logo produzo a minha própria energia e matéria, pois eu não me alimento de comida que se possa comprar e cozinhar, mas sim dos poemas que eu próprio escrevo. Mas só redigi-los e nutrir-me deles não chega, é preciso que os outros, as pessoas que me rodeiam os leiam para que eu possa assim fazer a minha digestão e não morrer de dores de tédio e ansiedade insuportáveis. E passo a explicar e repiso, que não é preciso que os demais leiam e digam bem do que rabisco, podem dizer mal desde que leiam e critiquem.
Ás vezes as pessoas perguntam-me: então qual foi o poema que gostaste mais de fazer? E eu respondo: «o próximo, pois cada poema que faço atinge a um determinado instante um auge de felicidade, e é desse cume que procuro sempre».

António Seia

Ser


Queria ir em direcção ao nada,
sem destino,
sem uma única coordenada.

Queria alodialmente não estar só,
ser selvagem,
e respirar desigual dos outros.

Gostava mesmo era de ouvir mais,
pois a natureza fala tanto,
mas ninguém lhe faz caso.

Cada melodia do pássaro,
cada ramalhar da árvore,
cada sussurrado do vale,
cada passar do rio.

Pretendo ao menos uma vez,
voar livre nas asas do vento,
gritar até escassear o fôlego,
ser livre como o rio que corre e decorre quando quer.

Solto como as pétalas na brisa do verão,
Livre como em queda livre nos céus abertos,
Apartado como uma águia desaparecendo no horizonte.

Desejo ser corda de uma guitarra,
ser doce,
cantar o fado e a noite,
harmonizando todos os sons
unidos numa única pauta.

Queria isolar-me no auge da serra,
saborear o vento que não me cerra,
embeber a naturalidade de tudo,
ler Torga,
Ser...

Maia, 4 de Maio de 2009
António Seia

Sede perturbadora

Tenho fome,
de unir letras e versejar,
e da ponte do insaciável
não consigo atravessar.
É um vazio oco, que por nada
nada sem água o meu estômago.

Sinto sede de viajar infinitamente,
erguer o polegar por boleia ao tempo,
e ao seu sabor doce me embeber.
Contudo, o copo está vazio.

Ser turista,
isso é coisa de amadores,
e exuberantemente superficial,
apenas para quem frui de bom capital.

Eu desejo e preciso de algo além,
ser como um velho viajante,
cuja bengala e sabedoria,
conhecem e já cumprimentaram a alma
de todas as paisagens e vistas miradas,
todos os rios e oceanos cruzados, todas as
ruas e trilhos não mapeados...

Porém, o copo permanece vazio...

Maia, 22 de Janeiro de 2010 António Seia

Viagem Sonhada

Despido das suas velas,
icei-as,
parti no barco dos sonhos.

Navegava eu para o meu destino,
apenas numa gota de oceano,
mas era tão além e moroso...

Naveguei então noutro rumo,
e ali,
ali nada era como um breve sopro,
que se extingue no ar...

Ali,
a enigmática noite aparecia,
e trazia todas as pétalas das estrelas,
as quais eu colhia,
e ao lado,
uma imensa esfera colorida de branco,
que me sussurrou em tinta indelével
os versos de um poema,
onde tudo eram marés favoráveis e certas,
algo quimérico e cantado conforme o Fado,
mas ainda tão pouco imaginado...

E por isso,
falei ao céu:
Não consigo aportar o meu sonho...
E o sábio respondeu-me:
Em qualquer viagem,
o essencial é o percurso que tomamos,
pois é ele que nos compõe a memória.
O destino final,
é apenas mais um marco na história.

Maia, 8 de Julho de 2009
António Seia